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terça-feira, 4 de junho de 2013

Novamente, o ungido do Senhor...



Por Márcio Jones


          Marco Feliciano, direitos humanos, homossexualidade, homofobia, programas televisivos, entre outros tópicos afins. Os dias passados foram agitados. E com todos esses assuntos, também voltou à pauta, no meio eclesiástico, a célebre frase: “não toque no ungido do Senhor”. Então, pensam muitos, visto que Marco Feliciano ou quem quer que seja é pastor, é ministro da palavra, ser vedada qualquer sentença contrária que lhe diga respeito.
            Confesso que este tema me irrita um pouco. Porém, creio ter razões para isso. Não poucas foram as arbitrariedades de que tomei conhecimento, sob tal pretexto. Conheço bem o contexto neopentecostal. Foram sete anos respirando essa visão. E, nota-se, lá está não o berço da expressão — ungido do Senhor, mas de seu emprego arrogante, autoritário e amordaçador. Eis que de uma falácia de autoridade tal uso fez montaria e assim se põe a cavalgar nos arraiais evangélicos que cultivam a ignorância e o analfabetismo bíblico e teológico. Com efeito, isso se insere num processo.
Quão logo o neófito, o novo convertido, torna-se um membro, não se considera primordial o ensino quanto ao uso dos meios de graça ou relativo às principais doutrinas cristãs, por exemplo. Em seco lhe fazem engolir o que chamam de “princípio de autoridade”, uma gama de conceitos distorcidos sobre autoridade espiritual, que serve de alicerce para o que virá em seguida. É dizer, tudo o que esse neófito vier a aprender posteriormente será filtrado segundo esse conjunto de preceitos aprendidos a título de autoridade, no âmbito eclesiástico. O dito método ardiloso é eficaz, confesso, uma vez que, no futuro, passa a consistir em uma garantia que tem o líder de que não será contrastado, ou, caso o seja, em casos excepcionais, terá ao seu lado a maioria dos membros da igreja, também infectados por essa linha de pensamento, e pode, facilmente, taxar o dissidente de rebelde, alguém que "tocou no ungido do Senhor".
É esse o uso que se tem feito da referida expressão: uma carta branca conferida a um líder para expor o que pensa e fazer o que lhe convém, sendo vedado aos demais crentes contrapô-lo, censurá-lo, e até mesmo mencioná-lo pejorativamente, ainda que ele esteja frontal e notoriamente contra a Escritura. Ai de quem falar algo sobre o ungido!!
Pois bem, outros já examinaram a origem da expressão e alguns de seus desdobramentos (Como assim, "não toqueis no ungido do Senhor..."?! ; O USO CORRETO DA EXPRESSÃO "UNGIDO DO SENHOR"). Penso ser interessante analisar o porquê não devo conferir plena credibilidade a qualquer um que arrogue para si o título de ministro do Evangelho, porque “ungido”, e quais os mecanismo bíblicos para se frear tais manifestações.
          Em primeiro lugar, o alcance e significado bíblicos da expressão 'ungido do Senhor' é bastante restrito e no Antigo Testamento quer-se referir ao ato em que um profeta ou juiz, a mando de Deus, investia oficialmente um indivíduo, escolhido e designado por Javé, no cargo de rei de Israel. Na oportunidade, era derramado óleo sobre sua cabeça a fim de consumar o ato. Dessa maneira, por exemplo, procedeu Samuel para com Saul (1 Sm 10.1) e Davi (1 Sm 16.13).
    Nesse diapasão, é um tanto quanto equivocado referir-se a um ministro como ungido do Senhor. A unção como realizada no período monárquico de Israel tinha feições nitidamente de comando, de condução da vida política, militar e social, uma vez que, naquele momento, o povo requeria ser governado por um rei, como as nações em redor (1 Sm 8.4-9, 19-20). Isto é, contextos distintos e conceitos distintos. É um tentativa de repercussão de um termo em franco desrespeito à sua originalidade.
Em segundo lugar, muitos entendem como uma carta de recomendação o tão só fato de um indivíduo ser conhecido publicamente como ministro da Palavra. Isso basta! Não importa o que vive, prega ou ensina. Perceba que não é este o doutrinamento do Novo Testamento. Antes, somos instados a confrontar o ensino desses homens com o que está escrito, uma vez que, desde os primórdios da igreja, os falsos mestres se mantêm em ativa atuação, e que aquilo que por eles é propagado, na maioria dos casos, é sutil e sorrateiro, contudo letal.
Jesus fez minuciosas advertências quanto à perniciosidade do falso ensino (Mt 13.5-12; 23.1-12; 24.3-14), Paulo igualmente o fez (At 20.29-31; 2 Co 11.4-15; Gl 1.6-12; Cl 2.8; 1 Tm 4.1-5; 2 Tm 4.1-4), bem assim o apóstolo Pedro (2 Pe 2.1-3), João (1 Jo 2.18-19; 4.1-6) e Judas (3-4). Seguramente se conclui que as doutrinas do erro permeavam e continuam a permear a igreja de Cristo, cabendo aos crentes repeli-las, algo que só é possível quando existem profundas raízes doutrinárias, solidez teológica e cristocêntrica.
Posto isso, se faz assaz ingênuo crer que falsos mestres tenham dependurado em suas testas um fosforescente letreiro em luz néon que assim o indique. O critério para legitimação de alguém que se propõe ao ensino, à instrução é moral (Mt 7.15-20) e  doutrinal (At 17.10-11; 1 Tm 6.3-4; Tt 2.1).
Em terceiro lugar, ainda que, em contrariedade com o supramencionado, admitíssemos a figura do ungido do Senhor tal como seu errôneo uso corrente, inexiste poder deferido de maneira irrestrita a um líder cristão de molde a impedir lhe sejam feitas advertências (1 Sm 24.12,15; 26.9-10) ou até mesmo denúncias (1 Tm 5.19) quando este estiver em desacordo com os parâmetros estabelecidos por Deus em sua palavra.
Por último, uma compreensão mais ampla e neotestamentária da expressão em comento é a empregada por João, na primeira epístola que leva seu nome, pouco após alertar sobre o perigo da apostasia, nos seguintes termos: "E vós possuis a unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento" (1 Jo 2.20), e outra vez, logo em seguida: "Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou" (1 Jo 2.27). Crentes verdadeiros são detentores da aludida unção, que concede compreensão espiritual das Escrituras, da doutrina, bem como entendimento para distinguir entre a verdade e o erro. Trata-se de uma capacidade para discernir entre o que é consentâneo ou não às balizas estabelecidas pelo Senhor. Nessa linha — diferentemente dos pastores autoritários, todos quantos estamos inabaláveis, firmes nessa graça e nos gloriamos na esperança da glória de Deus somos ungidos do Senhor (Rm 5.2).
           
            

domingo, 26 de maio de 2013

Dez motivos para não participar da “Marcha para Jesus”




Por Rev. Ageu Cirilo de Magalhães Jr. 


No dia, 03/09/2009, o então Presidente da República, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a lei que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus.
Estavam ali, naquele ato, alguns líderes do governo, juntamente com o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella, e os bispos da Igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sônia Hernandes. A sanção do presidente veio apenas tornar oficial uma prática que se repete a cada ano. Considerando o tamanho do evento e a quantidade de irmãos que mobiliza, alisto abaixo dez motivos que cada cristão deveria considerar para não participar desta marcha. As informações que dão base à análise podem ser encontradas em sites de promoção da marcha:
1.                   A igreja que organiza a maior parte da marcha é conduzida por um homem que se autodenomina apóstolo. Este é um erro cada vez mais frequente em algumas denominações. É sabido que o título “apóstolo” foi reservado àquele primeiro grupo de homens escolhidos por Cristo. Após a traição e suicídio de Judas, os apóstolos escolheram outro para ocupar seu lugar (At 1.15-20), mas, como foi feita esta escolha? Que critérios foram usados? 1º) Ter sido discípulo de Jesus durante o seu ministério terreno; 2º) Ter sido testemunha ocular do Cristo ressurreto. Portanto, ninguém que não tenha sido contemporâneo de Cristo ou dos apóstolos (como Paulo o foi) pode sustentar para si o título de apóstolo;
2.                  A igreja que organiza a marcha ensina a Teologia da prosperidade (crença de que o cristão deve ser próspero financeiramente), Confissão positiva (crença no poder profético das palavras — assim como Deus falou e tudo foi criado, eu também falo e tudo acontece), Quebra de maldições (convicção de que podem existir maldições, mesmo na vida dos já salvos por Cristo) e Espíritos territoriais (crença em espíritos malignos que governam sob determinadas áreas de uma cidade);
3.                  A filosofia da marcha está fundamentada em uma Teologia Triunfalista (tudo sempre vai dar certo, não existem problemas na vida do crente), tendo como base textos como Êxodo 14 (passagem de Israel no mar Vermelho) e Josué 6 (destruição de Jericó);
4.                 De acordo com os sites que organizam a marcha, uma das finalidades dela é promover curas e libertações;
5.                  A marcha não celebra culto, mas “show gospel”;
6.                 Os líderes do movimento propagam que a marcha tem o poder de “mudar o destino de uma nação”;
7.                  Na visão do grupo, com base em Josué 1.3: “Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado”, a marcha é uma reivindicação do lugar por onde passam na cidade;
8.                 Na visão do grupo, a marcha serve para tapar as “brechas deixadas pelos atos ímpios de nossa nação”;
9.                 Na visão do grupo, a marcha destrói “fortalezas erguidas pelo inimigo em certas áreas em nossas cidades e regiões”;
10.              A marcha tem caráter isolacionista, próprio de gueto, e não o que Cristo nos ensinou, a saber, envolvimento amplo na sociedade, como sal e luz (Mt 5.13-16), com irrepreensível testemunho cristão: “...mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (1 Pe 2.12).
Ademais, é importante observar que toda a organização da marcha está centrada nas mãos de uma igreja apenas, excluindo-se o alegado caráter de união entre os evangélicos.
Tanta força e entusiasmo deveriam ser canalizados para a pregação do evangelho. As pesquisas indicam que os evangélicos já somam 25% da população brasileira, no entanto, a imoralidade, a corrupção e a violência estão cada vez maiores em nosso país. Os canais de TV, os programas de rádio, bem como as marchas não têm gerado transformação de vida em nosso povo.
A marcha que Cristo ensinou à sua igreja foi outra, silenciosa e efetiva, tal qual o sal penetrando no alimento (Mt 5.13); pessoal e de relacionamento, como na igreja primitiva (At 8.4); cotidiana e sem cessar, como entre os primeiros convertidos (At 2.42-47).
Que Deus nos restaure essa visão. 

                                                                                                                                                       

Rev. Ageu Cirilo é pastor da Igreja Presbiteriana Vila Guarani, São Paulo, diretor do JMC e membro do Conselho Editorial da CEP.
Texto extraído do jornal Brasil Presbiteriano de Maio de 2013. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Cinco sinais de que você glorifica a si mesmo



Por Paul Tripp

É importante reconhecer o fruto de autoglorificar-se em você e em seu ministério. Que Deus use esta lista para lhe conceder sabedoria diagnóstica. Que ele use esta lista para expor seu coração e redirecionar seu ministério.

Autoglorificar-se fará com que você:

1. Ostente em público o que deveria ser mantido em particular.

Os fariseus são um vívido exemplo primário para nós. Porque eles viam suas vidas como gloriosas, eles eram ligeiros em ostentar essa glória diante dos olhos de quem estivesse vendo. Quanto mais você pensa que você já chegou lá, e quanto menos você vê a si mesmo como necessitando de graça resgatadora, mais você tenderá à autorreferência e à autocongratulação. Por você estar atento à autoglorificação, você vai trabalhar para conseguir maior glória mesmo quando não estiver consciente de que está fazendo isso. Você tenderá a contar histórias pessoais que fazem de você o herói. Você encontrará maneiras, em cenários públicos, de falar de atos privados de fé. Por você se achar digno de aplausos, você buscará os aplausos de outros encontrando maneiras de apresentar a si mesmo como “piedoso”.

Eu sei que a maioria dos pastores lendo esta coluna pensarão que nunca fariam isso. Mas estou convencido de que há mais “desfile de piedade” no ministério pastoral do que tendemos a pensar. Esta é uma das razões pelas quais eu acho conferências pastorais, reuniões de presbitério, assembleias gerais, convenções, e reuniões de plantação de igreja desconfortáveis às vezes. Após uma sessão ao redor da mesa, essas reuniões podem se degenerar a um “concurso de cuspe” de ministério pastoral, onde somos tentados a menos do que honestos sobre o que de fato está acontecendo em nossos corações e em nossos ministérios. Após celebrar a glória da graça do evangelho, há demasiado recebimento de glória autocongratulatória por pessoas que parecem precisar de mais aplausos do que merecem.

2. Seja demasiadamente autorreferente

Todos nós sabemos disso, todos nós já vimos isso, todos nós já ficamos desconfortáveis com isso, e todos nós já fizemos isso. Pessoas orgulhosas tendem a falar muito de si mesmas. Pessoas orgulhosas tendem a gostar mais de suas próprias opiniões do que das opiniões dos outros. Pessoas orgulhosas pensam que suas histórias são mais interessantes e cativantes do que as dos outros. Pessoas orgulhosas pensam que eles sabem e entendem mais do que os outros. Pessoas orgulhosas pensam que conquistaram o direito de serem ouvidas. Pessoas orgulhosas, por basicamente terem orgulho do que sabem e do que fizeram, falam muito sobre ambos. Pessoas orgulhosas não falam a respeito de suas fraquezas. Pessoas orgulhosas não falam a respeito de suas falhas. Pessoas orgulhosas não confessam pecado. Então pessoas orgulhosas são melhores em colocar os holofotes sobre si mesmas do que em refletir a luz de suas histórias e opiniões de volta para a gloriosa e completamente imerecida graça de Deus.

3. Fale quando deveria ficar calado.

Quando você pensa que já chegou lá, você é bem orgulhoso e confiante de suas opiniões. Você confia em suas opiniões, então você não está tão interessado nas opiniões dos outros quanto deveria estar. Você tenderá a querer que seus pensamentos, perspectivas e pontos de vista vençam em qualquer reunião ou conversa. Isso significa que você estará muito mais confortável do que você deveria estar com dominar um grupo com sua conversa. Você falhará em ver que na multidão de conselhos há sabedoria. Você falhará em ver o ministério essencial do corpo de Cristo em sua vida. Você falhará em reconhecer suas tendências e sua cegueira espiritual. Você não irá a reuniões formais ou informais com um senso pessoal de necessidade do que os outros têm a oferecer, e você controlará a conversa mais do que deveria.

4. Fique quieto quando deveria falar.

A autoglorificação pode ir para o outro lado também. Líderes que são muito autoconfiantes, que involuntariamente atribuem a si mesmos o que poderia apenas ser efetuado pela graça, frequentemente veem reuniões como uma perda de tempo. Por serem orgulhosos, eles são muito independentes, então as reuniões tendem a ser vistas como uma interrupção irritante e inútil de uma agenda ministerial já sobrecarregada. Por causa disso, ou eles acabarão com todas as reuniões ou as tolerarão, tentando finalizá-las o mais rápido possível. Então eles não lançam suas ideias para consideração e avaliação porque, francamente, eles não acham que precisam. E quando suas ideias estão na mesa e sendo debatidas, eles não entram na briga, porque eles pensam que o que eles opinaram ou propuseram simplesmente não precisa de defesa. A autoglorificação fará com que você fale demais quando você deveria ouvir, e com que você não sinta necessidade de falar quando você certamente deveria.

5. Se importe demais com o que os outros pensam de você.

Quando você caiu no pensamento de que você é alguma coisa, você quer que as pessoas reconheçam esse “alguma coisa”. Novamente, você vê isso nos fariseus: avaliações pessoais de autoglorificação sempre levam a um comportamento de busca por glória. Pessoas que pensam que chegaram a algum lugar podem se tornar hipersensíveis a como outras pessoas reagem a elas. Por você ser hipervigilante, observando a maneira pela qual as pessoas em seu ministério respondem, você provavelmente nem sequer percebe como você faz as coisas por autoaclamação.

É triste, mas frequentemente ministramos o evangelho de Jesus Cristo por causa de nossa própria glória, não pela glória de Cristo ou a redenção das pessoas sob nossos cuidados. Eu já fiz isso. Eu já pensei durante a preparação de um sermão que um certo ponto, colocado de certa maneira, poderia ganhar um detrator e eu já fiquei observando à procura da reação das pessoas enquanto eu pregava. Nesses momentos, na pregação e na preparação de um sermão, eu abandonei meu chamado como embaixador da eterna glória de outro pelo propósito de conseguir para mim o louvor temporário dos homens.



Por Paul Tripp. Copyright © 2013 The Gospel Coalition, Inc. Todos os direitos reservados. Usado com permissão. Original: 5 Signs You Glorify Self.
Paul Tripp é pastor, escritor, e conferencista internacional. Ele é presidente do Paul Tripp Ministries e trabalha para conectar o poder transformador de Jesus Cristo ao dia a dia.
Tradução: Alan Cristie – Mionistério Fiel © Todos os direitos reservados. Webistes www.MinisterioFiel.com.br e www.VoltemosAoEvangelho.com. Original: 5 Sinais de que Você Glorifica a Si Mesmo (Paul Tripp)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A alma católica dos evangélicos do Brasil





Por Augustus Nicodemus


          Os evangélicos no Brasil nunca conseguiram se livrar totalmente da influência do Catolicismo Romano. Por séculos, o Catolicismo formou a mentalidade brasileira, a sua maneira de ver o mundo ("cosmovisão"). O crescimento do número de evangélicos no Brasil é cada vez maior segundo o IBGE (2006), somos 40 milhões – mas há várias evidências de que boa parte dos evangélicos não tem conseguido se livrar da herança católica.          
          É um fato que a conversão verdadeira (arrependimento e fé) implica uma mudança espiritual e moral, mas não significa necessariamente uma mudança na maneira como a pessoa vê o mundo. Alguém pode ter sido regenerado pelo Espírito e ainda continuar, por um tempo, a enxergar as coisas com os pressupostos antigos. É o caso dos crentes de Corinto, por exemplo. Alguns deles haviam sido impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores. Todavia, haviam sido lavados, santificados e justificados "em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus" (1 Co 6.9-11), sem que isso significasse que uma mudança completa de mentalidade houvesse ocorrido com eles. 
          Na primeira carta que lhes escreve, Paulo revela duas áreas em que eles continuavam a agir como pagãos: na maneira grega dicotômica de ver o mundo dividido em matéria e espírito (que dificultava a aceitação entre eles das relações sexuais no casamento e a ressurreição física dos mortos capítulos 7 e 15) e o culto à personalidade mantido para com os filósofos gregos (que logo os levou a formar partidos na igreja em torno de Paulo, Pedro, Apolo e mesmo o próprio Cristo – capítulos 1 a 4. Eles eram cristãos, mas com a alma grega pagã.
          Da mesma forma, creio que grande parte dos evangélicos no Brasil tem a alma católica. Antes de passar às argumentações, preciso esclarecer um ponto. Todas as tendências que eu identifico entre os evangélicos como sendo herança católica, no fundo, antes de serem católicas, são realmente tendências da nossa natureza humana decaída, corrompida e manchada pelo pecado, que se manifestam em todos os lugares, em todos os sistemas e não somente no Catolicismo. Como disse o reformado R. Hooykas, famoso historiador da ciência, "no fundo, somos todos romanos" (Philosophia Liberta, 1957). Todavia, alguns sistemas são mais vulneráveis a essas tendências e as absorveram mais que outros, como penso que é o caso com o Catolicismo no Brasil. E que tendências são essas?

1) O gosto por bispos e apóstolos
          Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum, infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos, catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos autonomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções.

2) A ideia de que pastores são mediadores entre Deus e os homens
          No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam, na Missa, o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana passou para os evangélicos, com poucas mudanças. Até nas igrejas chamadas históricas, os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles e como se os pastores funcionassem como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas já assimiladas como "a oração dos 318 homens de Deus", "a prece poderosa do bispo tal", "a oração da irmã fulana, que é profetisa", etc.

3) O misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados
          O Catolicismo no Brasil, por sua vez influenciado pelas religiões afro-brasileiras, semeou misticismo e superstição durante séculos na alma brasileira: milagres de santos, uso de relíquias, aparições de Cristo e de Maria, objetos ungidos e santificados, água benta, entre outros. Hoje, há um crescimento espantoso, entre setores evangélicos, do uso de copo d'água, rosa ungida, sal grosso, pulseiras abençoadas, pentes santos do kit de beleza da rainha Ester, peças de roupa de entes queridos, oração no monte, no vale; óleos de oliveiras de Jerusalém, água do Jordão, sal do Vale do Sal, trombetas de Gideão (distribuídas em profusão), o cajado de Moisés... é infindável e sem limites a imaginação dos líderes e a credulidade do povo. Esse fenômeno só pode ser explicado, ao meu ver, por um gosto intrínseco pelo misticismo impresso na alma católica dos evangélicos.

4) A separação entre sagrado e profano
          No centro do pensamento católico existe a distinção entre natureza e graça, idealizada e defendida por Tomás de Aquino, um dos mais importantes teólogos da Igreja Católica. Na prática, isso significou a aceitação de duas realidades coexistentes, antagônicas e freqüentemente irreconciliáveis: o sagrado, substanciado na Santa Igreja, e o profano, que é tudo o mais no mundo lá fora. Os brasileiros aprenderam durante séculos a não misturar as coisas: sagrado é aquilo que a gente vai fazer na Igreja: assistir Missa e se confessar. O profano – meu trabalho, meus estudos, as ciências permanece intocado pelos pressupostos cristãos, separado de forma estanque. É a mesma atitude dos evangélicos. Falta-nos uma mentalidade que integre a fé às demais áreas da vida, conforme a visão bíblica de que tudo é sagrado. Por exemplo, na área da educação, temos por séculos deixado que a mentalidade humanista secularizada, permeada de pressupostos anticristãos, eduque os nossos filhos, do ensino fundamental até o superior, com algumas exceções. Em outros países, os evangélicos têm tido mais sucesso em manter instituições de ensino que, além de serem tão competentes como as outras, oferecem uma visão de mundo, de ciência, de tecnologia e da história oriunda de pressupostos cristãos. Numa cultura permeada pela idéia de que o sagrado e o profano, a religião e o mundo, são dois reinos distintos e freqüentemente antagônicos, não há como uma visão integral surgir e prevalecer, a não ser por uma profunda reforma de mentalidade entre os evangélicos.

5) Somente pecados sexuais são realmente graves
          A distinção entre pecados mortais e veniais feita pelo catolicismo romano vem permeando a ética brasileira há séculos. Segundo essa distinção, pecados considerados mortais privam a alma da graça salvadora e a condenam ao inferno, enquanto que os veniais, como o nome já indica, são mais leves e merecem somente castigos temporais. A nossa cultura se encarregou de preencher as listas dos mortais e dos veniais. Dessa forma, enquanto se pode aceitar a "mentirinha", o jeitinho, o tirar vantagem, a maledicência, etc., o adultério se tornou imperdoável. Lula foi reeleito cercado de acusações de corrupção. Mas, se tivesse ocorrido uma denúncia de escândalo sexual, tenho dúvidas de que teria sido reeleito ou de que teria sido reeleito por uma margem tão grande. Nas igrejas evangélicas – onde se sabe pela Bíblia que todo pecado é odioso e que quem guarda toda a lei de Deus e quebra um só mandamento é culpado de todos – é raro que alguém seja disciplinado, corrigido, admoestado, destituído ou despojado por pecados como mentira, preguiça, orgulho, vaidade, maledicência, entre outros. As disciplinas eclesiásticas acontecem via de regra por pecados de natureza sexual, como adultério, prostituição, fornicação, adição à pornografia, homossexualismo, etc., embora até mesmo esses estão sendo cada vez mais aceitáveis aos olhos evangélicos. Mais um resquício de catolicismo na alma dos evangélicos?
          O que é mais surpreendente é que os evangélicos no Brasil estão entre os mais anticatólicos do mundo. Só para ilustrar (e sem entrar no mérito dessa polêmica), o Brasil é um dos países onde convertidos do catolicismo são rebatizados nas igrejas evangélicas. O anticatolicismo brasileiro, todavia, se concentrou apenas na questão das imagens e de Maria e em questões éticas como não fumar, não beber e não dançar. Não foi e não é profundo o suficiente para fazer uma crítica mais completa de outros pontos que, por anos, vêm moldando a mentalidade do brasileiro, como mencionei acima. Além de uma conversão dos ídolos e de Maria a Cristo, os brasileiros evangélicos precisam de conversão na mentalidade, na maneira de ver o mundo.
          Temos de trazer cativo a Cristo todo pensamento, e não somente os nossos pecados. Nossa cosmovisão precisa também de conversão (2 Co 10.4-5). Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais católicas de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas, me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neocatolicismo tardio que surge e cresce em nosso país, onde até os evangélicos têm alma católica.


terça-feira, 19 de março de 2013

Como interpretar a Bíblia



Por Paul Washer

A Bíblia é um livro Espiritual que deve ser interpretado através da iluminação do Espírito Santo, mas ao mesmo tempo a Bíblia é um livro, e a única correta interpretação éaquela que  concorda com sua gramática – o que está escrito. Por esta razão é importante quenós  estejamos familiarizados com as regras ou princípios da interpretação. A ciência da  Hermenêutica é o estudo desses princípios.

Hermenêutica é um assunto sério. A nossa interpretação da Bíblia irá determinar nossas crenças e essas crenças determinarão como pensamos e agimos. A seguir, estão 13 princípios que nós devemos seguir quando interpretamos a Bíblia:

1. A Bíblia é a autoridade absoluta. É impossível interpretar a Bíblia corretamente sem a convicção de que toda a Bíblia é a Palavra de Deus. Nós não temos o direito de rejeitar certas partes da Bíblia porque elas se opõem às nossas tradições, opiniões, ou estilos de vida.

2. O Espírito Santo é o melhor professor da Bíblia. O Senhor Jesus disse que enviaria o Espírito Santo para guiar a Igreja em toda a verdade (João 14:26; 16:13) e sem Sua iluminação é impossível entender a Bíblia (I Coríntios 2:14). Isso não significa que em “nome do Espírito Santo” temos o direito de desviar do que está escrito na Palavra ou acrescentar algo a ela. Apenas o que está escrito na Bíblia pode ser afirmado como doutrina. Nossos sentimentos e emoções têm pouco valor na formulação de uma fé bíblica.

3. A própria Bíblia é o seu melhor comentário. Quando nós não podemos entender a interpretação de uma parte da Bíblia ou queremos alargar nossa compreensão dela, nós devemos buscar explicações em outras referências Bíblicas.

4. A Bíblia não se contradiz: Portanto sempre deve haver harmonia em nossas interpretações de textos diferentes. Se nossa interpretação de um texto contradiz a interpretação de outro, então estamos errados.

5. Textos incertos [difíceis] devem ser interpretados através de textos claros [fáceis]. Aqueles textos que a interpretação não é muito clara devem ser interpretado à luz dos textos, que podem ser entendidos claramente.

6. A gramática determina a Interpretação. O texto ou verso que estamos estudando tem somente uma interpretação correta e é aquela na qual está de acordo com a gramática (o que está escrito). Mesmo se o texto possa ter várias aplicações, ele tem apenas uma interpretação correta e é aquela que está de acordo com o que está escrito.

7. O contexto é importante. A Bíblia é como um quebracabeça no qual é impossível interpretar somente uma peça sem um entendimento geral de todas as outras. Cada palavra
deve ser interpretada no contexto da frase, cada frase no contexto do parágrafo, cada parágrafo no contexto do livro e cada livro no contexto da Bíblia inteira.

8. As palavras são importantes. Deus escolheu palavras para nos comunicar Sua palavra. Portanto é importante determinar o significado de cada palavra.

9. A interpretação simples é normalmente a melhor. A Bíblia não foi escrita para teólogos ou místicos, mas para o homem comum. Apesar de haver alegorias, metáforas e símbolos na Bíblia, devemos buscar a mais simples interpretação.

10. O Velho Testamento deve ser interpretado à luz do Novo. Para o Cristão, o Novo Testamento determina a aplicação do Velho Testamento em sua vida. Um bom exemplo é a doutrina do Espírito Santo. No Velho Testamento, Ele poderia ser retirado dos crentes (Sl. 51:11), mas no Novo, ele permanece eternamente com ele (João 14:16-17).

11. A interpretação não deve ir além da revelação das Escrituras. O que a Bíblia não explica nós devemos aceitar como um mistério. Se formos além “do que está escrito” corremos perigo de formar falsa doutrina.

12. O Objetivo é a exegese. A palavra exegese vem do verbo Grego exegeisthai [ ex=fora/ hegeisthai=conduzir ou guiar ]. Quando interpretamos as Escrituras devemos extrair o verdadeiro sentido do texto e a todo custo devemos evitar ler textos a qual euacho que ele pode significar. Devemos evitar interpretar a Bíblia de acordo com nossas próprias
presunções ou ideias preconcebidas. Nossas presunções são como óculos coloridos que destorcem nossa visão das Escrituras. Devemos nos esforçar para retirar nossos óculos e
ver o texto como ele é. Esse é o maior trabalho do estudante da Bíblia.

13. Nossa interpretação pessoal deve ser comparada com a da Igreja. Nos últimos 2000 anos, teólogos dedicados, pastores e outros Cristãos estudaram as Escrituras. Devemos comparar nossas descobertas com a deles. Se nossa interpretação não é encontrada entre os dedicados Cristãos da história, possivelmente estamos errados. Não deveria haver “novas descobertas” na doutrina Cristã. Judas refere à fé Cristã com aquele que foi “de uma vez por todas” entregue aos santos (Judas 1:3).



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A MEMORIZAÇÃO DAS ESCRITURAS




Por Tom Ascol
A memorização das Escrituras parece uma tarefa desanimadora para muitos de nós. Por quê? Para alguns de nós, a memória já não é tao boa como costumava ser ou, pelo menos, como lembramos que era! "Tenho uma memória ruim" é uma expressão muito usada para nos justificarmos, quando nem mesmo tentamos memorizar a Palavra de Deus. 

Outros simplesmente nunca tentaram decorar as Escrituras. Como qualquer outra tarefa que nunca foi executada, temor e incerteza podem inibir uma primeira tentativa. Outros que já superaram esse temor, ainda assim, caminham com dificuldade  sem saber por onde começar e como fazer para decorar versículos bíblicos. 

Quando comecei a pregar em 1 Pedro, aos domingos pela manhã, pedi a congregação que memorizasse aquela epístola. Mesmo aqueles que tem memorizado as Escrituras durante muitos anos, nunca decoraram um livro inteiro de uma só vez. Meditar em 1 Pedro, nos domingos pela manhã, pareceu-nos uma grande oportunidade de tentarmos memorizar todo o livro. Um membro comentou: "Fico feliz que o pastor Tom não nos pediu isso quando começou a pregar em Jeremias!" Este seria um bom livro para colocarmos no topo de nossa lista de livros da Bíblia para decorar! Mas 1 Pedro tem apenas 105 versículos. Se aprendermos aproximadamente três versículos por semana, teremos memorizado o livro todo em pouco mais de oito meses. 

Por que devemos tentar fazer isso? Bem, a Bíblia nos oferece muitas boas razões. Deixe-me apresentar-lhe rapidamente três delas:

1. MEMORIZAR A PALAVRA DE DEUS NOS AJUDA A VIVER COM MAIS FIDELIDADE A VIDA CRISTà

No Salmo 119, verso 11, Davi ora: "Guardo no coração as tuas pa­lavras, para não pecar contra ti". Ao "guardar" a Palavra de Deus em seu coração, você estará bem equipado para lutar em sua batalha diária contra o pecado. 0 sábio Salomão nos fala assim: "Inclina o ouvido, e ouve as palavras dos sábios, e aplica o cora­ção ao meu conhecimento. Porque é coisa agradável os guardares no teu coração e os aplicares todos aos teus lábios. Para que a tua confiança esteja no SENHOR, quero dar-te hoje a instru­ção, a ti mesmo" (Pv 22.17-19). Guar­dar as palavras do Senhor nos ajudará a colocar nossa confiança n'Ele. Em outras palavras, esta disciplina nos auxiliará na luta pela fé. 

Isto é claramente demonstrado pelo próprio Senhor Jesus, durante as tentações no deserto, descritas em Mateus 4.1-11. Ele foi capaz de re­sistir aos assaltos do diabo recitando a Escritura de cor. 

2. MEMORIZAR A ESCRITURA NOS AJUDA A TESTEMUNHAR 

Quando Pedro teve a oportunidade inesperada de pregar durante o Pentecostes, ele o fez citando versículos do Antigo Testamento (At 2). Ele não possuía um pergaminho para ler; ele precisou comunicar-se a partir daquilo que havia memorizado. Não é de admirar que Pedro tenha escrito: "Estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós" (1 Pe 3.15). 

A Palavra de Deus é a espada do Espírito (Ef 6.17). Para empunharmos esta espada de maneira efetiva, precisamos tê-la prontamente disponível em nossa mente. A memorização das Escrituras torna isso possível. 

3. MEMORIZAR A ESCRITURA AUXILIA NA MEDITAÇÃO 

O Senhor nos recomenda a me­ditação como uma valiosa disciplina espiritual. Esta será auxiliada e enco­rajada, se a memorização da Escritura tornar-se habitual em nossa vida. O salmista diz: "Quanto amo a tua lei! E a minha meditação, todo o dia!" (Si 119.97). Além disso, o livro de Salmos começa com estas palavras: "Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarne­cedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dão seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido" (Sl 1.1-3). 

O Senhor fez uma referência se­melhante para Josué, antes que ele conduzisse o povo à Terra Prometida: "Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer se­gundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho, e serás bem-sucedido" (Js 1.8). 

A probabilidade de meditarmos na Palavra de Deus será muito major, se tivermos porções dela na memória e prontamente disponíveis em nossa mente e coração. 

Andy Davis é um amigo que pastoreia a Primeira Igreja Batista de Durhan, NC. Andy empenhou sua vida no esforço e encorajamento de outros, a fim de engajarem-se na tarefa de memorização de passagens extensas da Escritura. Ele contribuiu com um capítulo sobre exatamente este assunto no livro que editei, Dear Timothy (Amado Timóteo, Editora Fiel). A seguir, estão seus argumentos em favor da memorização de capítu­los e livros inteiros da Bíblia; 

1. Isto honra o testemunho que as Escrituras dão sobre si mesmas: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2 Tm 3.16); e, "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4.4). Deus não desperdiça o seu sopro, pois não há palavras supérfluas nas Escrituras. E você descobrirá que alguns de seus momentos mais poderosos de convicção, discernimento e encora­jamento virão de textos inesperados da Bíblia. 

2. Uma vez que boa parte da Bíblia é escrita como um fluxo de pensamento, com o autor expondo alguns pontos gerais, de argumentação lógica, memorizar a passagem inteira possibilita um entendimento major da ideia central. Você não irá perder a floresta pelas árvores. E nem as árvores pela floresta. Todo o livro de Hebreus será como uma única 
sinfo­nia da verdade, e cada verso individu­almente na sequência de ideias tocará suas próprias notas com uma nova claridade. Este benefício da "floresta e das árvores" [ou seja, abrangendo o todo e suas partes] também irá ajudá­-lo a construir um teologia bíblica completa, sem defeitos, e sistemática, ao mesmo tempo que lhe dará enten­dimento, capacidade para pregar e ensinar versículos, individualmente, da forma adequada. 

3. Você estará menos propenso a usar versículos fora de seu contexto; como resultado da memorização de todo o livro. Um dos argumentos mais comuns usados pelas pessoas que se opõem a você em uma discussão doutrinária é: "Você está tirando isto do contexto!" Um trabalho cuidadoso no livro todo ira ajudá-lo a evitar este tipo de erro. 

4. Sua alegria continuará aumen­tando, assim como sua reverência a miraculosa infinidade da verdade nas Escrituras, conforme você descobre novas verdades dia após dia, més após mês. A disciplina de memorizar livros inteiros ira levá-lo a territórios nunca antes desbravados, e, uma vez que "toda a Escritura é inspirada por Deus e útil..." (2 Tm 3.16), você receberá benefícios desta jornada de descobrimento. 

ENCORAJAMENTO PARA MEMORIZAR A PALAVRA DE DEUS 

1. Lembre-se que o Senhor tem poder sobre sua mente. "Então, [Cristo] lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras" (Lc 24.45). Jesus operou de modo eficaz na mente de seus discípulos para que entendessem. Ele pode; do mesmo modo, operar em você, a fim de capacitá-lo a memorizar. Dedique o seu melhor. Faça um esforço sincero e ore para que Ele abençoe os seus esforços. 

2. Pense nos benefícios que ad­vém da memorização da Palavra de Deus! Quem dentre nós não desejaria ter a vida moldada mais e mais pelas Escrituras? Todo crente gostaria de ter as palavras da Bíblia em sua men­te, prontas para serem incorporadas em suas conversas. Estes são dois dos beneficios da memorização das Escri­turas. E claro que há muitos outros, como indicam os versos que citei anteriormente. Nós não memorizamos a Escritura com muita frequência, simplesmente porque ela não é muito importante para nós. Não gostamos de admitir, mas isso tende a ser 
ver­dade. Como ficaríamos motivados, se alguém nos oferecesse cem mil reais a cada capítulo que conseguís­semos memorizar! Você faria isso? Ao menos tentaria? Os beneficios de memorizar a palavra de Deus, como sabemos, são mais altos que qualquer quantia em dinheiro. 

Elabore um plano. Onde quer que você comece, para continuar memorizando versículos, é de impor­tância vital que estabeleça um tempo a cada dia, a fim de trabalhar em ver­sículos específicos. Ainda que sejam cinco ou dez minutos por dia, já será um bom começo. Se você puder fazer isso duas vezes por dia, seu progresso será ainda maior. 

Faca o possível para ser constante e trabalhar na memorização das Es­crituras todos os dias. Acho bastante útil anotar os versículos em pedaços de papel ou cartão. Desse modo, pos­so levá-los comigo e trabalhar neles durante o dia. Reveja o que aprendeu. A medida que você decorar mais versículos, precisará adicionar algum tempo para revisar os versículos mais antigos, enquanto trabalha nos mais recentes. Muitas vezes, no processo de revisão que emergem alguns dos mais frutíferos pensamentos para meditação. 

Por fim, peça a outros que o auxi­liem - orando por você e ajudando­-lhe a memorizar. Uma das bênçãos de trabalharmos juntos em um livro como 1 Pedro é que podemos dar assistência um ao outro durante a nossa vida diária. Quando estiver falando ao telefone, em público, antes de uma aula ou após o almoço, peca a um amigo ou a alguém da família que confira os versículos nos quais você está trabalhando. Ofereça-se para fazer o mesmo por eles. 

Ore para que o Senhor faça sua Palavra permanecer no coração e na vida de seu povo e que nós nos conformemos mais a imagem de Jesus Cristo.
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Tom Ascol, Pastor da Igreja Batista de Cape Coral, na Flórida.
Revista Fé para Hoje, n.32, 2007
Fonte: Biblioteca Evangélica

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A trágica vinda de Benny Hinn ao Brasil



Por Márcio Jones

Diante de alguma controvérsia doutrinária ou evento de questionável índole, o puritano John Owen (1616-1683) possuía um método solucionador interessante, o qual quero apresentar. Owen nunca tratou um problema direta e imediatamente; sempre o colocou em seu contexto. Além disso, não se precipitava em responder a perguntas suscitadas. Antes, perguntava: “que princípio está aqui envolvido”? Em seguida: “onde isto se encaixa na doutrina e no ensino geral da Bíblia?”. Vejo tal postura como muito equilibrada, que se distancia, principalmente, de análises equivocadas por falta de conhecimento e que diplomaticamente se adequa até mesmo à mais acirrada discussão teológica. Afinal, se nos dizemos cristãos, sobretudo reformados, invocamos como única regra de fé e prática a Sagrada Escritura, e, para solucionarmos dúvidas teológicas, devemos nos dirigir a Ela em última instância, e as paixões e partidarismos que fiquem em segundo plano.

Partindo desse pressuposto, quero tecer alguns comentários sobre a recente vinda do sr. Benny Hinn ao Brasil, sobretudo à Taguantinga-DF — cidade onde moro —, e as reuniões por ele lideradas, em geral, rotuladas de “cultos de avivamento”. Entendo que é de suma importância ao se estudar determinado instituto doutrinário identificarmos aquilo que não está contido em seu conceito. Ou seja, para que compreendamos o que vem a ser um avivamento, necessário é sabermos o que não é um avivamento. Para tanto, convém que tratemos um pouco sobre o ministério de um homem chamado Charles Finney. 

No século XIX, avivamento passou a ser um assunto de grande relevância, a partir do ministério do pastor Charles Finney, então presbiteriano, mais conhecido por suas técnicas do que por sua teologia nada ortodoxa. Antes dele, tais manifestações eram tidas como soberanas, graciosas e inesperadas, provenientes de Deus. Finney, porém, após narrar uma experiência marcante com o Espírito Santo, passou a compreender que avivamento espiritual nada mais é do que o emprego de determinadas leis espirituais. Ele o comparou à semeadura. Pensava que da mesma maneira com que se cultiva uma semente, no campo espiritual, se houver rigorosa observância aos métodos corretos o avivamento é possível de ser fabricado. É dizer, se o povo de Deus se arrepender de seus pecados e os confessar, buscar a Deus em oração, o avivamento virá.

Finney, então, começou a colocar tais métodos em prática. Ele costumava visitar cidades onde havia igrejas presbiterianas ou não, nas quais fazia reuniões de uma semana, pregando contra o pecado e a necessidade de as pessoas se arrependerem de seus pecados e se humilharem diante de Deus. Com efeito, ele narra, e outros também, resultados extraordinários, como quebrantamento, cidades inteiras mudadas pelo Espírito Santo mediante. Finney então inaugura um tipo de ministério que não havia antes na igreja, que é o do ‘avivalista’, um pastor especialista em produzir avivamentos.

Em sentido contrário, à luz da Escritura notamos que avivamento não é uma ciência, como afirmava Finney, mas um dom da graça da parte de Deus, impossível de ser produzido mediante a aplicação de determinados métodos. Segundo Franklin Ferreira, avivamento é “a ação soberana do Espírito Santo, agindo de tal forma que grande número de pessoas receba o evangelho ao mesmo tempo, enquanto a igreja abandona seus pecados”. Avivamento bíblico é, sim, um retorno às Escrituras, um retorno aos preceitos divinos, abandono dos ídolos. Algumas porções bíblicas consensuais entre os teólogos atestam esse posicionamento, por exemplo: Gn 35.1-15; 2 Rs 18.1 ; 2 Cr 14 e 15; 2 Cr 26; 2 Cr 34; Ne 8, 9.

Hoje, os expedientes adotados por Benny Hinn e os rótulos de suas reuniões, nos fazem lembrar, de imediato, de Charles Finney. Como no tempo de Finney, os cristãos da atualidade perguntam: “o que importa sua doutrina, se em tudo que Benny faz há grandes resultados, grandes manifestações de Deus?”. “Ora, tudo isso é, sim, o agir do Espírito Santo!”. Vigora o pensamento pragmático, de “aparentes” resultados, de grande concentração de pessoas, de comoção e histeria coletivas, desprezado o mínimo exame bíblico.

O que pensar de um homem que abertamente diz que Deus não o permite pregar (aos 10m50s do vídeo abaixo) — sem mencionar seus outros ensinos heréticos, veja aqui , por exemplo? Ora, se é a pregação o método por intermédio do qual Deus chama seus eleitos (Mc 1:38, Rm 10.14; 1 Co 1.21) e edifica a fé destes (Rm 10.17), como posso abraçar tal declaração como se viesse do próprio Deus?! O ministério de homens como Pedro, Paulo, Apolo estavam solidamente edificados sobre a pregação do evangelho. Vejamos Paulo, que de cidade em cidade anunciava o evangelho (At 13.16-41; At 14.1-7; At 16.13,14; At 17.10-31; At 18.5-11), procurando persuadir os seus ouvintes (2 Co 5.11). O escritor aos Hebreus afirma que "nestes últimos dias, nos falou Deus pelo Filho" (Hb 1.2). Cristo é a própria Palavra inegavelmente (Jo 1.1), sem mais revelações posteriores. E o trabalho do Espírito Santo, tão mencionado pelo pastor em comento, é glorificar a Cristo (Jo 16.14), dando-Lhe testemunho (Jo 15.26). Seria no mínimo ilógico glorificar a Jesus sem pregar o próprio Jesus, que é a Palavra.

Não bastasse isso, há um convite despudorado a um cristianismo místico e esotérico que privilegia a experiência em detrimento da Escritura, como induz o referido pastor. Devemos provar os espíritos (1 Jo 4.1). E qual é o critério? Invariavelmente a Escritura, cujo conhecimento liberta (Jo 8.32). A nobre virtude dos cristãos de Bereia residia em seu hábito de não receber cegamente tudo quanto ouviam de um "avivalista" qualquer, mas em analisar avidamente as Escrituras a fim de comparar o conteúdo de um sermão com aquilo que estava escrito (At 17.11). Portanto, a experiência deve se conformar à Escritura, e não o contrário. Se assim não fosse, qual seria o critério para validar uma experiência anterior com uma posterior? E quando a comparação se der entre a experiência de um cristão e a de um budista ou de um hinduísta? Voltamos à mesma proposição: a baliza é a Escritura, a verdade que liberta, santifica e pavimenta a nossa comunhão com Deus. A fé cristã é essencialmente racional. Citando John Stott, "crer é também pensar".

            Sola Scriptura.